segunda-feira, 11 de maio de 2015

Sermão de Dom Humberto no Dia das Mães

SERMÃO POR OCASIÃO DO DIAS DAS MÃES 
6º DOMINGO DA PASCOA 
CATEDRAL NACIONAL DA SANTÍSSIMA TRINDADE
10 DE MAIO DE 2015.
Leituras bíblicas: Atos 10:44-48, Salmo 98, I João 5:1-6, João 15:9-17

Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou também ama ao que dele é nascido (1 João 5:1)
1. Queridas irmãs em Cristo, estimada Deã e Mãe, Revda. Marinez, dirigio estas palavras especialmente para vocês companheiras da caminhada cristã, que exercem a maternidade de todas as formas e em todas as circunstâncias. Também para vocês, ou para nós, queridos irmãos em Cristo, gerados de muitas formas e em muitas circunstâncias por mães diversas, esperadas e inesperadas.

2. As leituras do Novo Lecionário Comum Revisado, que compartilhamos com as igrejas irmãs, Católica Romana, de Confissão Luterana no Brasil, Metodista e Presbiteriana Unida, figura como segunda leitura, para este 6º Domingo da Páscoa, o capítulo 5 da Primeira Carta de João, ou da “Comunidade do Discípulo Amado” (como afirma Raymond Brown no título do seu livro). Só que no lugar do capítulo 4º temos o capítulo 5º, que inicia com este versículo intrigante para mim, especialmente se lido no contexto do Dia das Mães. Também no contexto do lançamento do Novo Livro de Oração Comum da IEAB que colhe, por primeira vez para nossa igreja provincial, uma nova visão humana e teológica inclusiva. Livro que tem como uma das principais pessoas responsáveis, co-atora, revisora e guardiã, a primeira mulher a ser Custódia do LOC, a nossa Revda. Marinez Rosa dos Santos Bassotto.

3. Diz o versículo que todas as pessoas que crêem que Jesus é o Cristo de Deus são geradas de Deus. Pois este verbo, tanto em português quanto em grego e acredito que em todos os idiomas humanos, aplica-se a gravidez e parto! Portanto, este Deus que gera não pode ser visto de forma exclusivamente masculina, ou apenas como Pai, mas também como mãe! Mas, o versículo não se contenta com esta afirmação!

4. Seguindo o estilo que também caracteriza o Quarto Evangelho, isto é, segundo João, usa a repetição de palavras para enfatizar a mensagem, repetindo nesta versão em português, duas vezes o gerúndio “nascido” e uma vez “gerado”. Em grego todas as três ocorrências são do mesmo verbo “gerar”. Mas, como é que Jesus foi gerado? De fato os Credos afirmam que foi nascido de Maria! Na Oração Eucarística B, do Rito 2, do Novo Livro de Oração Comum, correspondente a A do atual, afirma-se: “E, na plenitude dos tempos, enviaste teu único Filho, nascido de mulher, para cumprir a tua vontade e ser para nós o caminho da liberdade e paz”.Então, ao nascer de Maria, sua mãe, Jesus nasceu de Deus! Assim todas e todos nós, pela fé em Jesus Cristo, nascemos de Deus que é, também, nossa Mãe!


5. Mas, ultrapassada esta primeira etapa na que finalmente estamos livres para perceber que, apesar de nossa cegueira patriarcal, Deus sempre foi também nossa mãe, inclusive em Cristo, podemos dar, então, o passo principal, o passo do amor! 

6. Quando a Primeira Carta de João afirma que nascemos de Deus em Cristo, e que está e a base de nosso amor, não o faz em tom de reivindicação feminista contra o patriarcado. Aponta apenas para a natural expressão do amor que é a maternidade! 

7. Deus não tem que ser reconhecido como Mãe para diminuir seu reconhecimento com o Pai, ou para reivindicar a materlinearidade divina ou hereditária, ou coisas do tipo. Deus é proclamado Mãe porque o processo da fé, o processo da redenção, o processo da libertação e da salvação, o processo da vida em todas suas dimensões, é um processo de amor que exige ser visualizado através da maternidade. Assim é que devemos interpretar a expressão “Pai Materno” ou “Deus Pai-Mãe”, que aparece por primeira vez em um Livro de Oração Comum da IEAB! Devemos acolher com alegria, como o fez a comunidade joanina do amor, a afirmação de que toda pessoa que acredita em Jesus como Cristo é nascida de Deus, e assim, Deus é também nossa Mãe, assim como Maria foi mãe de Jesus! 

8. No versículo 4, deste mesmo capítulo, o assunto volta, agora como chave para interpretar nossa relação com o mundo: “Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé”. Que mundo é este que precisa ser vencido no poder gerador de Deus Mãe? Por que o mundo precisa ser vencido? Por que nascemos na fé para vencer o mundo? 

9. Estas perguntas me levam, antes que a Bíblia, a experiência que tive com a mãe da minha filha, a Revda. Taís, na nossa primeira gravidez! Ela já tinha sonhado que teria primeiramente uma filha, depois a ecografia confirmou isso. No meio da natural depressão que afeta mais ou menos todas as mães durante os primeiro meses de gravidez, ela afirmou chorando: “outra mulher para sofrer no mundo”. É que ela já tinha sofrido muito por ser mulher, inclusive temeu por sua vida em um relacionamento anterior. 

10. Por outro lado, eu tinha nascido de uma mulher lutadora e feminista, que também tinha enfrentado a tuberculose, tinha ficado viúva, tinha ficado sozinha com uma filha, tinha perdido uma gravidez, e lutado por outra. A filha que teve com seu segundo marido chamou-se “Ygaen” (em Tcheco, “sim”), porque o pai dela não queria que ela nascesse, e Imara, que signfica, “reafirmar”. Depois, do terceiro marido, meu pai, aos 40 anos de idade, com medo da incompatibilidade sanguínea e após ter perdido uma gravidez, nasceu este que vos fala. Chamou-me “Humberto” que nem meu pai, porque ela queria retribuir o amor com que este homem acolhera sua filha (Ygaen Ymara), e “Eugênio” que singifica, literalmente, “bem nascido”. Portanto, a filha e o filho de Ramona Ignácio (assim se chamava minha mãe, mas era conhecida como “Monona”), era duas vitórias contra forças contrárias à vida!

11. Quando, Taís, chorando, confessou seu medo diante deste mundo, esta herança materna aflorou, e tomado pelo espírito de minha mãe já falecida nessa época, afirmei: “nossa filha não virá a este mundo para sofrer, mas para mudar o mundo”! Não foi diferente com Maria, a mãe de Jesus, quanto teve que enfrentar em seu processo gestacional, e durante todo o tempo da sua maternidade! A incompreensão, a migração, a falta de condições para o nascimento da criança, a fuga e o exílio diante do massacre promovido por Herodes, a própria dificuldade de entender as opções de seu filho, a dor de vê-lo morrer na Cruz, tudo o que o Evangelho segundo Lucas resume na profecia de Simeão “E uma espada traspassará também a tua própria alma” (2:35). Então, a maternidade divino-humana, não é apenas uma boa imagem para a origem da fé e da vida, mas também uma inspiração na transformação de tudo o que no mundo atenta contra a vida, e uma fonte de esperança na definitiva vitória contra a violência, a injustiça e a morte! Assim todas e todos nós, no amor materno de Deus, temos o poder da fé, o poder capaz de vencer o mundo! 

12. O discurso de Jesus que o Quarto Evangelho coloca na mesa Eucarística a partir do capítulo 13, e que neste domingo recolhemos no capítulo 15, nos fala do amor do Pai expresso no Filho que, evidência o amor ao “dar alguém a sua vida pelos seus amigos” (João 15:13b). Assim mesmo, inclusive aqui, como entender “dar a vida” ignorando a maternidade? De fato, enquanto, sem a perspectiva da maternidade, “dar a vida” parece nos falar de “morrer por” (e é claro que isso faz parte), nesta outra perspectiva, parece nos falar de “viver para” (que também faz parte). Amar completamente é entregar minha vida, com o faz toda mãe, biológica ou não, para que outra pessoa se forme através dela, se alimente dela, se apóie nela, se abrigue nela. De fato, “dar a vida” é a ponte entre a maternidade e a paternidade. Mas o que é uma ponte se não vemos seus dois lados, suas duas origens e seus dois destinos? A ponte do amor e materna e paternal, ou é um beco sem saída! Uma plataforma ao vazio! 

13. Queridas irmãs, mães de todas as horas, lugares e pessoas. Queridas irmãs e irmãos, filhas e filhos de tantas mães, das que ainda permanecem aqui, ao redor de nós, como fontes de energia e inspiração e das que permanecem aqui, no interior de nosso ser, como alicerces. Quem bom, irmãs e irmãos em Cristo, que vivemos um tempo em que finalmente Deus também pode ser vivenciado na plenitude de Sua Divina Maternidade. Que bom que podemos ver nesta limitada maternidade, destas mulheres que não são super “nada” - apenas mães de muitas formas – a grande maternidade de Deus que fortalece as mulheres em sua vocação materna e os homens em sua vocação paterna, e todas e todos nós em nossa vocação sororal – de “sor”, isto é, irmã - e fraterna – de “frater”, isto é, “irmão”! 

14. Graças a Deus pela maternidade! Graças a Deus por este processo maternal interminável e inesgotável que vai muito além do biológico, mesmo que o inclua com incomparável beleza! Graças a Deus pelas mães que acreditaram, que disseram sim, que nos deram o exemplo de, com Deus, vencer o mundo e suas violência, injustiças e exclusões! Perdão quando as ignoramos e desvalorizamos sua maternidade, dom Deus, pelo qual Nosso Senhor se fez gente entre a gente! Perdão quando permitimos que mulheres sejam forçadas a viver maternidades indesejadas, através da violência, da desqualificação da vida,  e de qualquer tipo de opressão! Perdão quando exigimos tudo das mães, e deixamos ser companheiros e companheiras delas no maravilhoso processo da maternidade! Lembremos que Deus é Mãe, mas nossa mãe não é Deus, ela é um ser humano que precisa do mesmo amor que nos precisamos para exercer sua divina vocação maternal!

15. Lá o espaço celestial, onde acreditamos reside a “Bendita Comunidade de Todas as Pessoas Fiéis” na Luz de Cristo, Deus com Mãe ora com as mães! Lá ora com todas elas, com as que conseguiram vencer aqui neste mundo, e com todas as vítimas, deste mundo. Com as mães que partiram levando a alegria de ver filhas e filhos se desenvolver como pessoas, e aquelas que viram seus sonhos cortados pela morte, pela tragédia ou pela violência. Todas oram por nós! Oram para que aprendamos finalmente a lição da maternidade, e que aproveitemos o poder de gerar na fé, na vida, da caminhada, na luz! A elas todas, na comunhão de Deus Nossa Mãe, nossa gratidão eterna. Amém.

Dom Humberto Maiztegui Gonçalves
Bispo Diocesano

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